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Feliz e (muito) zangado? Quando ignorar o RNG no Hearthstone

Existem no jogo momentos de prender a respiração! Aprenda a lidar com isso.

por Bruno Nogueira

Todo jogador de Hearthstone já teve momentos de glória e desespero com os efeitos aleatórios do jogo (o famoso RNG). Eu, pelo menos, lembro de prender a respiração esperando o resultado de uma Briga, já tive meu lado do campo dizimado por um Atirador de Facas sem coração, e isso sem mencionar os momentos imprevisíveis em que alguém joga tudo pro alto e baixa um Yogg-Saron (seja louvado no modo livre), torcendo pra ser salvo numa situação que parece sem saída. Não sei como, nessas situações, não joguei o telefone na parede, e dou os parabéns ao fabricante do meu notebook, que sobrevive apesar de tudo.

Mas tenho que admitir que também já dei sorte, e em alguns casos o Yogg que parecia meu fim acabou garantindo minha vitória. Afinal de contas, o que é “aleatório” costuma ser “imprevisível”, e “Yogg-Saron” no idioma dos Deuses Antigos significa “dedo naquele lugar e gritaria”.

Nosso Senhor Yogg-Saron
Nosso Senhor Yogg-Saron

Mas é claro que nada disso é por acaso: a Blizzard sabe que todo jogo de cards tem RNG. Alguns jogos concorrentes trazem terrenos, Pokemón tem a energia, e mesmo em jogos mais simples e tradicionais, que sempre usam o mesmo baralho, a distribuição das cards é aleatória. O Hearhtstone tem efeitos aleatórios próprios; é um jogo criado para computador, um card game que é literalmente impossível reproduzir em papel. Essa é a grande sacada da Blizzard: usar o aleatório para criar esses momentos de tensão, aqueles que te puxam pra borda da cadeira e causam emoção de verdade, mesmo que seja raiva. É só ver a reação do público em grandes eventos ao vivo. Olhos grudados esperando o resultado de um efeito, gritos e risos e milhares de respirações presas sendo soltas simultaneamente.

Aquele momento que tudo desanda
Aquele momento que tudo desanda

Mas se você acompanha eventos profissionais, percebe que a maioria dos jogadores ali não se irrita tanto com os momentos ruins do RNG quanto nós, meros mortais. Eles não são completamente imunes, claro, com exceção de jogadores feito o Pavel ou o Frozen, que não são humanos e sim criações do Elon Musk para nos substituir. Mas em geral eles são muito menos afetados que nós. É isso que “profissional” quer dizer: estar consciente de todas as possibilidades e preparado para lidar com elas.

Afinal, se é verdade ou mito que o Hearthstone tem muito RNG, todo jogador sabe que esse RNG existe. E isso significa que eles podem escolher previamente a melhor maneira de lidar com ele. Conhecer e analisar com precisão todas as possibilidades de todas as jogadas e suas consequências deve estar além das capacidades humanas. Mas mesmo que você não tenha como ver quais são as três cards que o ladino descobriu de outras classes, é possível conseguir algumas informações se você jogar com cuidado. Se ele não matou sua Ysera você pode ter bastante certeza que ele não descobriu nada que pode destruir lacaios. Se ele tinha três manas sobrando em um turno e não fez nada, dificilmente é um segredo. Se nenhum de vocês tem lacaios em campo e ele passa o turno sem fazer nada, provavelmente não é um lacaio — ou se for, tem algum grito de guerra que não vale a pena usar agora. Em muitos casos essas informações são suficientes para ganhar o jogo, mesmo que sejam imprecisas.

Quando você menos espera...
Quando você menos espera...

Mas nesse texto, quero falar sobre o RNG de um jeito um pouco diferente. Não quero me aprofundar demais em casos específicos ou falar de tipos diferentes de aleatoriedade (se quiserem que eu faça isso num outro artigo é só pedir nos comentários), mas sim dar dicas a respeito de quando ignorar o RNG, e como agir quando você não sabe o que vai acontecer, mas precisa tomar uma decisão — dicas para ajudar você a melhorar seu jogo, e, bônus, a não passar tanta raiva.

Feliz e zangado!

Seja qual for o card game, se você quer ser um bom jogador, precisa entender uma coisa: m&¨% acontece. Você pode se preparar para ela, e ter consciência de que tudo pode dar errado é característica de um grande jogador. A derrota pelo azar, infelizmente, faz parte do jogo, não adianta perder a cabeça.

Quando você assiste um jogo entre jogadores profissionais, às vezes acha uma jogada estranha. Um jogador vai completamente contra as probabilidades e perde. É fácil pensar que ele não analisou direito, mas acontece que há muitos casos em que a melhor maneira de lidar com o aleatório é ignorar a probabilidade negativa.

Isso é uma coisa difícil de aplicar na hora do jogo, e eu sei que é estranho pensar assim, mas em vários casos, mesmo que você saiba que uma jogada tem 90% de chance de dar errado, ela continua sendo a jogada certa.

Em algumas situações a gente faz isso naturalmente. Quando você não tem nenhum card no baralho, um Leeroy Jenkins na mão, e o oponente tem 6 de vida e um segredo que você tem 99% de certeza que é Vaporizar, você faz o quê? Enfia o Leeroy no segredo. Você acha provável que ele morra antes de causar o dano? Sim. Você sabe que a chance de dar certo é mínima? Sem dúvida. Mas é o único jeito de ganhar.

É muito mais difícil encontrar esses momentos no meio do jogo, quando metade do seu deck ainda está lá e você tem outras opções na mão, mas eles acontecem — e muitas vezes são aquelas jogadas que um pro-player faz no mundial e você não entende.

Apostar no improvável pode trazer ganhos
Apostar no improvável pode trazer ganhos

Exemplo: você está jogando contra um caçador, e conhece bem os dois decks. Você reparou que ele está segurando aquele card mais à esquerda na mão desde o turno 2, e tem bastante certeza de que é um Disparo Mortal. Mas você também sabe que em poucos turnos ele mata você com o poder heroico, e você conhece seu deck: a única chance é baixar esse Antônidas agora, e rezar. Você ignora a probabilidade porque esse é o único jeito possível de ganhar o jogo. Você torce para estar errado e aumenta as chances de morrer agora, porque sabe que essa é sua única chance.

E o mesmo vale para efeitos aleatórios. Às vezes, mesmo que o oponente tenha um Ragnaros (modo livre no caso) em campo, a melhor jogada é baixar um lacaio com oito de vida e se ajoelhar ante o altar do Yogg. Você sabe que se colocou numa posição difícil, que pode perder o jogo na hora, mas se conhece bem seu deck, só vai fazer isso se não tiver outro jeito.

E pelo menos, quando o seu oponente joga aquele Disparo Mortal ou o Ragnaros atinge o seu 8/8, você fica feliz e muito zangado. Pode ter perdido o jogo, mas pelo menos leu as probabilidades e fez a jogada certa.

Conheça o jogo

Você deve ter notado o quanto eu falei em “conhecer seu deck” e “conhecer o deck do oponente” acima. E isso é importantíssimo. Mas os efeitos aleatórios, especialmente hoje em dia, exigem que você conheça mais do que isso. O ladino pode pegar basicamente qualquer card de qualquer classe. A Hagatha pode dar ao xamã trocentos feitiços, deixando o oponente com vários cards aleatórios, e pode ser impossível saber quais. Mas isso não significa que não exista um jeito de lidar com elas.

Depois de ler e ouvir o que muitos pro-players falam, acho que dá pra resumir uma atitude importante em duas perguntas. Se você estiver à frente do jogo: “como eu perco esse jogo?” E se estiver atrás, “como eu ganho esse jogo?”

Existem milhões de exemplos disso, mas vamos imaginar um xamã que tem vinte de vida e cinco cards na mão, todas elas pelo efeito da Hagatha (ou seja: magias de xamã aleatórias). Você sabe que o xamã tem algumas magias bem inúteis, mas também tem algumas fantásticas. Se você estiver à frente do jogo, vida razoável, um número legal de lacaios em campo e mais alguns na mão, você se pergunta: como pode perder o jogo? O jeito mais óbvio: jogar em campo tudo o que tem na mão e tomar uma tempestade de raios. Talvez até duas, por que não?

Eu não sei e não me importo se é provável que o meu oponente tenha pego duas tempestades de raios do efeito aleatório, mas sei que é possível. Se eu estou à frente do jogo, basta continuar batendo com meus lacaios e manter os outros na mão, por segurança; com o jogo como está, consigo ganhar com os lacaios em campo em pouco tempo. Vinte de vida, nesse caso, não é tanto assim, e se ele limpar o campo tenho substitutos pra continuar batendo. Minha vitória está garantida desde que eu não faça alguma coisa que me deixe perder o jogo. Daí essa pergunta. Estou imaginando as maneiras como o oponente pode virar o jogo e me prevenindo contra elas.

Mas e se eu não tiver lacaios em campo? A melhor ação, provavelmente, é jogar os lacaios da minha mão na mesa. Se eu tiver o suficiente para segurar um ou outro, ótimo, mas se não, azar; numa situação dessas, eu preciso correr o risco, não posso dar tempo para ele comprar mais cards, conseguir mais magias — e nesse caso, vinte de vida é muito. Os cards aleatórios do oponente podem ser exatamente as mesmas do outro caso, mas as minhas ações precisam ser completamente diferentes. Quando eu percebo que, pra ganhar, eu preciso que ele não tenha a Tempestade de Raios, então vou agir como se ele não tivesse. Se ele tiver a Tempestade, o jogo já estava perdido de qualquer forma. Se não, tomei a única atitude que tinha alguma chance de me levar à vitória.

Algumas vezes vale a pena atacar com tudo!
Algumas vezes vale a pena atacar com tudo!

Conclusão: jogue pra ganhar

Tudo o que eu falei nesse texto pode ser resumido com essa frase boa, velha e simples. Você tem que jogar pra ganhar.

A característica principal de uma coisa aleatória é que você não sabe qual vai ser o resultado. Você joga com probabilidades e possibilidades, e não com certezas. Precisa lembrar disso — até pra saber em que momentos o ideal é ignorar as probabilidades negativas.

Como comentei no início, não entrei em detalhes do RNG. Não comentei a respeito de como diluir as probabilidades de dar azar (colocando mais alvos para o Ragnaros, por exemplo) nem de como analisar as jogadas do oponente para tentar saber quais são os cards aleatórios que ele tem. Isso daria um texto inteiro, maior que esse provavelmente.

Mas a questão principal sempre foi essa: saiba quando as probabilidades são importantes e quando não, e sempre busque aquela jogada que te faça ganhar o jogo, e não aquela que salve o seu Antônidas ou mate o Ragnaros. É importante sim, considerar todas as probabilidades — desde que você não se concentre tanto nelas que acabe perdendo o jogo.

Colaboradores da Comunidade Card na Manga